O Núcleo de Estudos Interdisciplinares Irene Guerra Marques (NEGUM) busca valorizar, promover e intensificar os estudos à volta do papel da mulher no desenvolvimento da literatura e cultura angolana, declarou, ontem, a coordenadora do projecto.
Cíntia Gonçalves, que falava durante a apresentação oficial do programa, decorrido, na União dos Escritores Angolanos (UEA), em Luanda, explicou que o NEGUM, nasceu da vontade de dar continuidade dos feitos da escritora e professora Irene Guerra Marques.
A intenção, segundo a coordenadora, é criar um espaço de diálogo, investigação e partilha, através de debates, formações e publicações, onde a literatura servirá de ponto de encontro entre diversas vozes e perspectivas.
Cíntia Gonçalves esclareceu que o NEGUM não se vai focar apenas em obras de escritoras, mas, também, nas de escritores que tenham como centro a figura feminina. “Faremos estudos, por exemplo, de quantas são as mulheres angolanas representadas em obras por si mesmas e quantas representadas pelos homens”, explicou.
A responsável afirmou, também, que o programa vai ajudar a surgir, cada vez, jovens mulheres na literatura a ajudar no seu desenvolvimento e na valorização e preservação dos feitos daquelas que as antecederam.
O Núcleo de Estudos Interdisciplinares Irene Guerra Marques é composto por um grupo de mulheres que se consideram apaixonadas pela cultura, literatura e educação. Cada integrante tem uma história única, mas partilham um objectivo comum, o de honrar e fortalecer a presença feminina no panorama literário e cultural angolano.
O Núcleo de Estudos, criado pelo Movimento Litteragris, terá sempre uma abordagem interdisciplinar, buscando o auxílio de ciências como sociologia e psicologia. O evento de apresentação do NEGUM enquadrou-se nas celebrações do nono aniversário do Litteragris, assinalado na passada terça-feira.
Irene Marques recebe certificado de mérito
As integrantes do Núcleo de Estudos Interdisciplinares Irene Guerra Marques (NEGUM) entregaram, ontem, durante a apresentação oficial do programa, à sua patrona, um certificado de mérito e uma camisola do NEGUM. Entre as integrantes, esteve Cíntia Gonçalves, Isabel Santos e Edmira Cariango.
A professora e escritora Irene Guerra Marques, ao intervir durante um encontro, mostrou-se feliz com a homenagem, afirmando que a tomar conhecimento de que a sua trajectória inspirou um grupo de jovens mulheres dedicadas aos estudos literários, simboliza o reconhecimento do seu trabalho, mas, também, da importância da literatura na conexão das pessoas.
A escritora referiu que todo o conhecimento adquirido ao longo dos anos estará à disposição do projecto, que observou ser uma porta para um espaço de diálogo interdisciplinar. “Que o NEGUM venha a ser um espaço intelectual de criação e inspiração aos amantes da literatura, mas também de outras manifestações artísticas, como a dança, teatro, cinema e artes visuais plásticas”, disse.
Irene Guerra Marques apelou à comunidade angolana a aproveitar o espaço para pesquisar, questionar e, principalmente, intensificar os debates à volta da literatura feminina. O escritor Carlos Ferreira afirmou que as acções de Irene Guerra Marques têm sido, desde o início, feitas de coração com o propósito de ajudar a que as gerações seguintes possam absorver da sua experiência, de forma a serem melhores que a sua geração. Por isso, continuou, tem passado a vida ao lado dos jovens a transmitir o que sabe.
Irene Marques, referiu o amigo da escritora, pertence a uma geração que se preparou para fazer os sacrifícios necessários a fim de ajudar a resolver certos problemas que afligiam a sociedade.
Por outro lado, o escritor Akiz Neto, em representação do secretário-geral da União dos Escritores Angolanos (UEA), David Capelenguela, afirmou ser um grande momento para a literatura, sobretudo, por ser um grupo de jovens a reconhecer os feitos de Irene Guerra Marques. Segundo o escritor, Irene Guerra Marques já fez muito para o desenvolvimento da nação, por isso, merece qualquer gesto de apreço.
Perfil da homenageada
Professora jubilada pela Universidade Agostinho Neto, Irene Guerra Marques é licenciada em Filologia Românica pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, Portugal. Entre 1965 e 1975 foi professora de Língua Francesa e de Língua e Literatura Portuguesa.
Foi coordenadora nacional de Língua Portuguesa e Literatura Angolana no Centro de Investigação Pedagógica do Ministério da Educação entre os anos de 1976 e 1982. Desde 1983 até 1988, dirigiu o Instituto de Línguas Nacionais, tendo, posteriormente, entre 1988 e 2000, sido directora do Instituto Nacional de Formação Artística e Cultural. De 2001 a 2002, desempenhou as funções de assessora principal do vice-ministro da Educação e Cultura para a Reforma Educativa e, entre 2003 e 2010, foi consultora do ministro da Cultura.
Entre 2002 e 2019, foi docente das cadeiras de Língua Portuguesa e de Literatura Angolana na Faculdade de Letras da Universidade Agostinho Neto, onde exerceu, de 2010 a 2015, o cargo de chefe de Departamento de Língua Portuguesa. Participou, ainda, nos trabalhos de reestruturação do ensino secundário, de reformulação do ensino superior e na organização do ensino artístico em Angola.
Fonte: JA